sábado, 2 de novembro de 2024

Vida 

Dizer o quê
Depois do leite derramado?
Limpar os resquícios
Começar de novo
Encher a vasilha
Interromper a fervura
Cuidar
É constante a vigília
Correr em pradarias
Ou pular pro abismo?
Seguir, perseguir, persistir
Viver
Dia sim, dia também
À beira de um ataque de nervos

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Não me conta

Mente pra mim
Que já não há mais
Motivos pra mentir
Mente pra mim
Que tudo está em paz
Quem sabe assim
Eu consiga dormir
Sim
Mente pra mim
Que tudo está em paz
E eu te perdôo
Por querer me salvar
Me guardar destes tempos
Insanos tempos
Na redoma do faz-de-conta
Não me conta

Não me conta

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Levante

Descobertos
Desvelados
Desnudados
Para muito além da nossa nudez
Segregados
Diminuídos
Dizimados
Enganados
Violados
Desterrados
De nosso próprio chão

Yanomami
Carijó
Tapuia
Kayapó

Guarani
Ticuna
Kaingang
Juruna

Tamoio
Kamayurá
Xavante
Karajá

Levante!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Vigia

"Quantas vidas cabem
Numa vida só
Viver é uma arte
É desatar os nós
Nadar contra a corrente
Se expor, seguir em frente
E sempre que for preciso
E ainda que a dor atormente
Estampar no rosto um sorriso
Que a dó que por dentro se sente
Serve de sobreaviso
Cada alegria é um presente
Um regalo que acaricia
A dor que está na vigia" 

domingo, 26 de novembro de 2017

Domingo

Tantas lembranças latejando na cabeça
A longa espera, sem saber por onde andavas
Procurar, sair, bater de porta em porta
Pra descobrir onde é que te embrenhavas

Foi difícil, precisou de muita andança
A cidade a engolir a mãe aflita
Carregando pela mão suas crianças
Numa busca incansável e infinita

E em intensa, infindável agonia
Fostes mantido incomunicável
Até que finalmente alguém trouxe a notícia
E voltamos novamente a nos ver

Quantos dias, meses, anos a passar
Esperar semana inteira sem reclamos
É domingo, o santo dia da visita
Minuciosa, a repressão faz a revista

Ainda hoje dá vontade de chorar
Ao lembrar do homem e sua solidão
Quando a família saía pra visitar
O outro homem, o pai que estava na prisão

Era de barco, era de ônibus, era domingo
Tantos iguais com aquele mesmo sentimento
Vindos de cantos diferentes da cidade
Sem sofrimento, afinal, era domingo (15/06/2015)

domingo, 19 de novembro de 2017

Chacina

Corre pelas bocas
que mataram de novo
Correm as mulheres, as crianças
As crianças
Meninos-homens
Meninas-mulheres
Caem ao chão
E chamam pelas mães
As mães
Pobres mulheres
Choram suas mortes
E despedaçadas
Pedem pela paz

Poeta tem disso

Poeta tem disso
Faz do limão
Limonada
Adoçando com palavras
O amargo da chibatada
Porque a vida não perdoa
E o doce mel da ilusão
Alivia sua alma
Abrigo de tanta aflição
E é quase uma heresia
Transformar o dia-a-dia
Em verso
Em poesia

Vida  Dizer o quê Depois do leite derramado? Limpar os resquícios Começar de novo Encher a vasilha Interromper a fervura Cuidar É constante ...