segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Vigia

"Quantas vidas cabem
Numa vida só
Viver é uma arte
É desatar os nós
Nadar contra a corrente
Se expor, seguir em frente
E sempre que for preciso
E ainda que a dor atormente
Estampar no rosto um sorriso
Que a dó que por dentro se sente
Serve de sobreaviso
Cada alegria é um presente
Um regalo que acaricia
A dor que está na vigia" 

domingo, 26 de novembro de 2017

Domingo

Tantas lembranças latejando na cabeça
A longa espera, sem saber por onde andavas
Procurar, sair, bater de porta em porta
Pra descobrir onde é que te embrenhavas

Foi difícil, precisou de muita andança
A cidade a engolir a mãe aflita
Carregando pela mão suas crianças
Numa busca incansável e infinita

E em intensa, infindável agonia
Fostes mantido incomunicável
Até que finalmente alguém trouxe a notícia
E voltamos novamente a nos ver

Quantos dias, meses, anos a passar
Esperar semana inteira sem reclamos
É domingo, o santo dia da visita
Minuciosa, a repressão faz a revista

Ainda hoje dá vontade de chorar
Ao lembrar do homem e sua solidão
Quando a família saía pra visitar
O outro homem, o pai que estava na prisão

Era de barco, era de ônibus, era domingo
Tantos iguais com aquele mesmo sentimento
Vindos de cantos diferentes da cidade
Sem sofrimento, afinal, era domingo (15/06/2015)

domingo, 19 de novembro de 2017

Chacina

Corre pelas bocas
que mataram de novo
Correm as mulheres, as crianças
As crianças
Meninos-homens
Meninas-mulheres
Caem ao chão
E chamam pelas mães
As mães
Pobres mulheres
Choram suas mortes
E despedaçadas
Pedem pela paz

Poeta tem disso

Poeta tem disso
Faz do limão
Limonada
Adoçando com palavras
O amargo da chibatada
Porque a vida não perdoa
E o doce mel da ilusão
Alivia sua alma
Abrigo de tanta aflição
E é quase uma heresia
Transformar o dia-a-dia
Em verso
Em poesia

sábado, 18 de novembro de 2017

HaiKai

Em água parada
Um pingo
É revolução

Terra

Lágrimas copiosas
Escorrem sobre minha face
E se misturam às que caem do céu
O mesmo céu que cobre todos nós
Desde que nos entendemos por gente
Mas que gente somos
Nada gentis
Seja sob um céu azul
Ou gris
Seja no Pará
Em Cabul
Ou Bagdá
Em Londres ou Paris
Nossos mortos sob a terra
A mesma terra que desmorona
Aqui, acolá
Pelo que fazemos
E deixamos de fazer
Terra
O grande cemitério que habitamos
Vivos ou mortos

Lisboa

Lisboa
Essas ruas, ruelas, vielas
Tão minhas, tão tuas
Tão certas, e ainda assim trocadas
Por incertas marés
Que nos trouxeram o que já foi passado
Que é passado mas que se faz presente
Que me relembra quem sou, quem és
Negros que somos, fomos fortes
Índios que somos, semeamos
Somos sim, frutos dessa árvore
E sobrevivemos à peste, ao saque
E ao escutar um fado, um cântico, um tambor
Hoje podemos dizer
Lisboa, és tão nossa
Ainda que doa

Até quando

Lágrimas quentes e salgadas
Escorrem por nossas faces incrédulas
Sobreviventes que somos
Dos ataques em Bagdá
Dos estupros em Goytacazes
Das imoralidades
Da invisibilidade
Embora sejamos muitas
E ainda assim invisíveis
Aos olhos dos espertos
Que seguem impassíveis
Saqueando nossa integridade
Troféu de suas pequenezas
Mulheres negras e velhas
Na escala dos desimportantes
Abaixo dos homens negros e velhos
Entradas e bandeiras
Fincadas em nossas fraquezas
Até quando?

Para sermos iguais

O que a gente quer
É um pedaço de chão
Mais amor menos guerra
É ter nosso quinhão
Nessa vastidão

O que a gente quer
É ter pão sobre a mesa
E o brilho nos olhos
Mais delicadeza
Nessa vastidão

O que a gente quer
É sair por aí
Com a certeza da volta
Para sermos iguais
Nessa vastidão

Tanto

Só por você
Me fiz poeta
Pra poder dizer
Assim como tenho dito
Que te amo
Que te quero
Tanto tanto
Já nem sei mais
Quanto de mim há em mim
Que não seja um tanto de você
Do tanto de você
Que fez pouso dentro de mim

Poema para Mariana

Estamos por um fio
Estamos por um triz
Onde antes era rio
Agora é cicatriz

Onde antes era cama
Onde antes era rede
Agora só tem lama
Que derrubou parede

Onde antes na varanda
Se ouvia a passarada
Revoando em ciranda
Saudando a alvorada

Agora é desolação
É um nó de pranto e dor
Um querer de novo o chão
E um perfume de flor

Mas não tem mais chão
E não tem mais rio
E não tem mais gente
Nem tem casario

Não tem mais semente
Só a imensidão
Do estrago feito
Pela omissão (5/11/2015)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O resto

Queria fazer um poema de amor

Exclusivamente de amor
Um poema puro
Um poema único
Pro delírio
A cura

Mas o amor não anda só
Traz de arrasto uma dor
Uma dó

Se acomoda no peito
Até que um dia
Sem  qualquer sobreaviso

Se desalinha
Se desajeita
Se acaba

Não mais se fala
Não mais se sente

E do que antes era tudo
Só resta o resto
E o resto
Como dói

O Capital

Da janela do meu quarto
Observo
Nuvens cinzentas se movem
Lentamente pelo céu
Enquanto folhas nas árvores
Tremulam aos pingos da chuva
E penso
Com tristeza
 Na desumanidade
Na desnatureza
Atentados
Assassinatos
Roubos
Maracutaias
A nos espreitar
Na tocaia
Tristes tempos
Em que homens, mulheres e crianças
São alvos
Presas
Números
Contados
Descartados
Inocentes úteis
Aos interesse armamentistas
Bélicos
Fundamentalistas
Herméticos
Extremistas
Evangélicos
Moralistas
Anti-éticos
E no fundo de todo o lodo
O vil metal reina
Canibal





Poetas não se calam

Poetas não se calam
Poetas falam
Como calar o pranto
Como calar o riso
Como calar o canto
E não dizer o que é preciso?

Poetas falam
Não por obrigação
Mas por necessidade

Pra enaltecer o belo
Pra apontar o feio
Para denunciar o abuso
Falam, sem rodeio

Falam porque têm que falar
Falam pra vencer o medo
Para não se acomodar
E mesmo que incomodem
Poetas não se calam!


Sentimental

E lá vou eu
Quisera andar por aí
Sem lenço e sem documento
Mas não dá
Não deu
No bolso
Carteira de identidade
Número de CPF
Contas a pagar
Que não somem no vento
Na cabeça
Só me ocorrem canções
Melodias sem fim
Palavras
Sentimentos
Sim
Sou sentimental
Um tanto antiga talvez
Me prendo a cantigas
Escritos
E passa mês e entra mês
E me fio na sorte
Mas longe de ser fraca
Sou forte
Senão
Como encarar
Todo dia
A rudeza
Desse mundo que grita
E segue
Sem poesia?

O cinza do meu dia

Vivia eu no cinza do meu dia
Um dia triste, nem sol, nem ventania
Quando te vi, uma visão fugidia
A colorir o cinza do meu dia

Todo  o amarelo de repente virou ouro
Todo o azul de repente virou céu
Todo o vermelho de repente foi paixão
De repente se coloriu, o cinza do meu dia

Voz

Nossas palavras
Vozes que são
Nas vozes de outras
Novas palavras
Pra além-mar
Pra além-nós
Mato adentro
Campo afora
Só assim faz sentido
Deixar nosso eu
Habitar em vós
E de vós receber
Ressignificada
A nossa voz

O assovio da cotovia

Eu olhava e olhava e não via
Mas ainda assim ouvia
O alegre assovio da cotovia

Era um canto, um cantar, uma cantoria
Como quem desafia o dia-a-dia
Era assim, o assovio da cotovia

E uma calma a acalmar a calmaria
Escondendo as agruras da agonia
No bonito assovio da cotovia

Veio a noite, era noite, anoitecia
Quem se atreve a fazer a travessia
Nem um pio do assovio da  cotovia

Sinto falta, saudade, nostalgia
Quero ouvir outra vez a sinfonia
Do alegre assovio da cotovia

Negrume

Noite sem fim
Mais um navio
Um oceano de sal
Sal da lágrima
Seriam negras as lágrimas que corriam
pelas faces negras?
Ardendo na pele, nas feridas sangrentas
Seria negro o sangue vermelho do negro?
Os lombos negros se esfolando no chão duro
Chão do porão, do porão do navio
Do navio negreiro
E o navio era do branco
As  correntes cortando a carne negra
Carne a ser leiloada
Logo após a chegada
Beiços grandes, braços fortes
Dentes brancos, ancas largas
Tudo a ser examinado
Assim que chegasse ao destino
E o destino
Este já fora traçado
Colher a cana, trançar a palha
Deitar com a índia, dormir com a branca
Servir o branco e parir seus filhos
Enegrecer
Viva a África que vive
Dentro de todos nós (20/11/2014)

Milonga do Índio véio

Deitei o olho na campina em flor
Gemia um vento, balançando a dor
Batia forte neste peito meu
Que abriga dentro um coração ateu

Longe ia o sol, que tão longe sumia
E a lua prateando no céu se despia
A viola chorava e a gaita se ria
Corda e fole em bela parceria

Parece que não foi nada
Mas nada é o que parece
Quem espera sempre alcança
E eu esperei feito criança

Bebi do amargo como fosse cana
Aprumei o pala e me fui a campo
Sem arreio, meio ao deus-dará
Cruza de índio que não se deixa laçar

Mal-me-quer, o campo em flor
Minuano a balançar
O meu pala é o cobertor
Lembrança a me acompanhar

Motim

Sentir o sentir profundo
Da minha vida na tua
É ir no fundo do fundo do fundo
Lá no mais fundo de mim
Pra sempre voltar ao começo
E no começo encontrar
O teu coração no meu
E deflagrar o motim

Mais valia

Quanto vale um Rio Doce
E um álbum de casamento
Uma pasta de documento
Me diz, quanto vale?

Quanto vale andar na rua
Em Damasco ou em Paris
Sem medo de ser feliz
Me diz, quanto vale?

Quanto vale uma família
Africana ou libanesa
Afogada na correnteza
Me diz, quanto vale?

Quanto vale um garoto
De Belém, Rio de Janeiro
Que se torna prisioneiro
Me diz, quanto vale?

Quanto vale uma mulher
Violada e apedrejada
Apenas por ser mulher
Me diz, quanto vale

Anda, fala, quero saber
Quanto vale um ser humano
Na cabeça de um tirano?  (em nov/2015)

Fina Mistura

Sou brasileira, sou mestiça
Sou cabocla, sou pintada
Sou índia e sou guerreira
E dos meus olhos
Brotam rios de saudade

Sou negra, africana
Mãe-de-santo, sou quilombo
Dos tambores na senzala
E em meu sangue
Dança um samba que não cala

Sou das romarias, dos cortiços
Sou criada, portuguesa
Minhas naus navegam mares
Que desembocam nos engenhos
E em minhas veias
Corre um fado de tristeza

Sou açúcar, mandioca
Essa mistura aguardente
De bacalhau e boto-rosa
De feijão e de pimenta

Fui trazida num navio
Fui parida numa oca
E esquecida na fazenda

Quando eu quero
Tenho graça
Se é preciso
Tenho raça!

Cotidiano

Hoje senti vontade de largar tudo
Virar as costas, sair por aí
Quem sabe até ser feliz

A única coisa que fiz
Foi virar as costas
Olhar pro dia-a-dia
Plantar, cantarolar pelo corredor
Enquanto guardava as toalhas macias
Que tirei da secadora

Floração

No jardim um ipê rosa
Tão lindamente floresce
E tão lindamente derrama
Na terra sua cor rosa

E a terra agradecida
É sala de recepção
Quanta vida, quanta vida
Na morte da floração

Por ali já andou zangão
E a abelha atrevida
Na flor que até então
Guardava o beijo do beija-flor

É um lugar de  burburinho
Tem piar de passarinho
Por isso não passo o ancinho
Todo chão é cama, é ninho

Grávida

Nem sempre fui assim
Íntima de desconhecidos
Lúdica pros desamparados
Lâmina nos afortunados

Ou terei sido assim
Amante de desconhecidos
Brincante com os desamparados
Cortante nos afortunados?

Quem sabe o que fiz,
O que serei, será de mim?
Continuarei a ser, sei lá
Ávida, impávida,
Por fim, grávida de mim?

Quimera

Faço gosto que tu gostes
Mas se rolar de não gostar
Que a gente não se desgoste
Só não te assustes
Com este pequeno tema
Fiz pra não perder a mão
De sempre fazer poema
Mas o teu poema é outro
Tem que cruzar um rio
Pisar fundo nesta terra
Sem deixar de ser gentil
Se preparar para a guerra
Com o coração por um fio
Deitar ao chão a soberba
E ainda que te falte o chão
Escalar uma montanha
Pra tentar pegar o sol
E quando chegar ao cume
Deixar que a imensidão
Te guie solitário
Até a luz do farol
Onde teu poema te espera
Como quem reza um rosário
Sem pressa, pra que nunca acabe
O fio da palavra, a quimera
Que dentro de mim já não cabe.

Sonho

Quando me olhas
Com olhos de cobiça
E desalinhas
A flor do meu mistério
Desejos profanos
Me viram do avesso
Sussurro segredos
Sinto calafrios
Assustada
Acordo

Tribo

Quando te olho
Memórias me assaltam
Matas, florestas, cascatas
Teus olhos
Duas amêndoas
Escuras, inquietas, pinturas
Dois lagos
Nascentes, serenos, vertentes
Dois riscos
Profundos, marcados, fecundos
E ouço
Passos, pássaros, tambores, cânticos
E vejo
Cestas, flechas, redes, ocas
Cocares, colares, sementes, rios
Mares, canoas, igarapés
Manifesto, resistência
E me vejo
Muito além do poema
Apesar das algemas
Livre

Só por ser

Sabe-se lá
o que é ser artista
viver de sonho
sonhar pra viver
aguentar a carga
sem baixar a crista
fazer fazer e fazer
e de criar em criar
de se dar em se dar
se vive e se morre um pouco mais
nesses dias tão iguais
e o que de  verdade importa
é intangível
e só por ser
se é.

De palavra em palavra

     
De palavra em palavra
Faço meus versos
Conto as histórias
Revolvo a memória

De palavra em palavra
Construo pactos
Escrevo tratados
Me firmo e afirmo

De palavra em palavra
Uma por vez
Ou aos borbotões
Pensadas ou não
Cantadas, faladas
Sofrendo, sorrindo
Mandando, pedindo

Sigo adiante
Só mais uma vez

De palavra em palavra
No fio da palavra
Palavra de mulher

Vida  Dizer o quê Depois do leite derramado? Limpar os resquícios Começar de novo Encher a vasilha Interromper a fervura Cuidar É constante ...