sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Negrume

Noite sem fim
Mais um navio
Um oceano de sal
Sal da lágrima
Seriam negras as lágrimas que corriam
pelas faces negras?
Ardendo na pele, nas feridas sangrentas
Seria negro o sangue vermelho do negro?
Os lombos negros se esfolando no chão duro
Chão do porão, do porão do navio
Do navio negreiro
E o navio era do branco
As  correntes cortando a carne negra
Carne a ser leiloada
Logo após a chegada
Beiços grandes, braços fortes
Dentes brancos, ancas largas
Tudo a ser examinado
Assim que chegasse ao destino
E o destino
Este já fora traçado
Colher a cana, trançar a palha
Deitar com a índia, dormir com a branca
Servir o branco e parir seus filhos
Enegrecer
Viva a África que vive
Dentro de todos nós (20/11/2014)

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